
Caminhos possíveis de
Marcos Garrot
Uma das principais funções da arte é o exercício
continuo de cada pintor, escritor ou escultor de experimentar novas possibilidades
estéticas. Por trás de uma mesma estrutura, existe um sem-número
de maneiras de desenvolver um assunto, um tema ou uma forma. O desafio é
verificar a existência de novas maneiras de trabalhar um discurso escrito
ou visual.
A exposição “Caminhos possíveis”,
de Marcos Garrot, atinge, de maneira didática e com riqueza de linguagens
plásticas, uma unidade formal. Seus relevos e esculturas ganham agora
a companhia de pinturas, serigrafias e gravuras, todas marcadas por figuras
geométricas, como retângulos e triângulos. Sempre com predomínio
de linhas retas, eles ganham novas dimensões.
O ludismo, marca registrada do artista, permanece, mas acrescido de
novas possibilidades. O ferro pintado, seja em dourado, preto, tons ocres
ou cores mais quentes, vale-se de variações de luminosidade
para obter efeitos a partir de contrastes entre faixas largas e estreitas,
entre as cores e entre os cheios e vazios do espaço tridimensional.
Retângulos ganham relevância em ferro, ou na textura de superfícies
bidimensionais. Recortes de trabalhos anteriores, acrescidos de novos materiais,
como o alumínio, e cores, como o universo dos laranjas, geram novos
caminhos de leitura. É o caso da presença da “viva”
madeira, que casa de forma indagadora com a “frieza” dos metais.
Aparentes repetições estabelecem as sutis diferenças
de técnica e de estrutura. Assim, a elegância e introspecção
das peças expostas possibilitam a criação de um clima
harmonioso, no qual estão presentes totens, despidos num primeiro momento
de misticismo, mas plenos de significação estética, por
indicarem um caminho de interpretação das formas com as quais
Garrot trabalha nos últimos anos.
O dramaturgo francês Musset (1810-1857), ao alertar sobre a riqueza
do espírito humano de sempre ver mais longe, não se contentando
apenas com o possível, apontou que é diferente dizer “Isto
poderia ter sido” de “Isto foi”. A exposição
“Caminhos possíveis” mostra como Marcos Garrot pode trabalhar
uma linguagem com diversas formas e suportes. O limite dessa jornada é
inexistente – e as sugestões, que ficam na mente do observador,
infinitas.
Texto de: Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes
Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo
e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte
(AICA-Seção Brasil)